O valor das coisas

São Paulo anda me fazendo pôr a mão no bolso. Tudo é caro nesse lugar. E não caro por eu não ter dinheiro, caro porque as coisas não valem o que estão pedindo. Sei sei… Você vai dizer que é questão de ponto de vista, mas se você acha normal pagar o que paga em aluguel, mercado, serviços como telefonia e internet, restaurantes, táxi, shows, etc, acredito que você deve ter algum parentesco com o Eiki Batista ou um parafuso a menos.

Não. Pra mim não é normal. Principalmente agora, depois de ter vivido em uma outra cultura. Moçambique me abriu os olhos pro real valor das coisas. Antes de ir eu estava numa fase bem esquisita que, hoje, não consigo entender como cheguei àquele ponto. Tinha lá meus 23, 24 anos, ganhava na época cerca de 10 – 12 salários mínimos e vivia com a cabeça nas nuvens. Guardar dinheiro? Até guardava mas sempre com um objetivo, aí, alcançado o valor, gastava. Certo que aproveitei bastante mas eu estava aproveitando sem limites, sem noção mesmo. Caro? Que nada, parcela no cartão! 😉 Era assim.

Bom, hoje olho as vitrines dos shoppings (aliás, virou um programa que já não gosto mais), os anúncios na internet, e a ânsia já vem me visitar. Não tive uma vida difícil em Moçambique, pelo contrário, tinha empregada doméstica, morei na melhor casa de toda a minha vida, etc. Mas lá me deparei com o simples. Com a beleza do passeio ser um piquenique ou um café da tarde com as amigas, os encontros serem “cada um traz uma coisa e pronto” e virar uma festa, com viagens incríveis a preços bacanas. Ali, eu percebi que estava gastando com as coisas erradas.

Qual é a sua moeda de troca?Voltei decidida a implantar um estilo de vida simples. E incrível, até meus amigos mudaram. Quando os interesses mudam, o seu entorno muda automaticamente. Vida simples atrai gente que topa coisas simples. E ser simples não é se transformar em um mendigo (e olha que tem mendigo muito mais rico do que muitos de nós). É fazer trocas, é pensar duas vezes antes de gastar muito com coisas banais, é entender o valor das coisas e pensar nas necessidades e não só nas vontades. É pensar em comunidade, ver que um ato seu, interfere sim no todo, na sociedade, no planeta. Eu tenho um lista  mental de coisas caras que valem o investimento, mas é uma lista, posso enumera-las e não me perder mais nelas. Aliás, uma conta que me assustou foi refletir o quanto de tempo tenho que trabalhar para adquirir algo, isso fez eu comprar cada vez menos. As vezes, para comprar um jeans, tenho que trabalhar mais de 24h e eu sei bem o quanto cada hora de trabalho minha vale. Faça as contas, você vai cair pra trás!

E nessa de tentar gastar menos sem perder a qualidade das coisas, comecei a me questionar como são minhas relações, o que elas poderiam me oferecer além de cerveja e uma rodada de calabresa acebolada? Tenho amigos em diversos ramos de atividade, e a gente está sempre precisando de uma coisa ou outra, não é mesmo? E se agíssemos de forma colaborativa e a moeda fosse o valor que aquilo de que você precisa, tem pra você? Por exemplo, se você precisa de serviços de marcenaria e sabe fotografar, por que não trocar o seu serviço com alguém que possa lhe dar o que você precisa?

“Ah, mas a hora de trabalho de um fotógrafo vale mais do que a hora de um marceneiro”. Aí que entra o meu ponto. Depende. O quanto você precisa daquele marceneiro? A necessidade faria o valor. O preço no final seria justo para ambas as partes já que uma precisava da outra. Eu não sei se isso já tem um nome e não me interessou pesquisar, apenas expressar. Mas gostaria de estar em grupo de pessoas assim.

O que você pode oferecer?Fiquei me perguntando se as pessoas andam cobrando porque acreditam que o quê oferecem vale aquilo, ou se porque há uma onda de “bois” precificando tudo e elas acabam indo na onda. Concluí que boa parte nós se transformou em bois que só seguem o fluxo para o abate. Isso é foda. Mas ao mesmo tempo, vejo gente despertando. Movimentos incríveis de retorno a essência, ao entendimento real do valor que tudo ao nosso redor tem e é nesse meio que quero me meter. Aliás, tô precisando de pintura, marcenaria, eletrodomésticos usados pra casa nova, já eu, sou pau pra toda obra e aprendi a fazer uma caipirinha de saquê com meu pai, que ó! Alguém quer trocar? 😉

Sâmela Silva, é Jornalista, Consultora em Gestão Empresarial e TI e Palestrante pelo projeto Marula Brasil. Curiosa que é, teve a oportunidade de morar em Moçambique, África, onde o despertar pela escrita falou mais alto.

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