Dia das Crianças: o presente é deixar seu filho ser ele mesmo

Amanhã é mais um 12 de Outubro! Uma data colorida onde boa parte das broncas e regras são deixadas de lado por 24 horas e o dia é todinho dos pequenos. Mas… e os outros 364 dias do ano?

Eu não sou mãe, então ainda não poderei caraminholar como tal, mas sou filha e vim aqui fazer um humilde pedido de presente: embrulhem a liberdade e dêem de presente aos seus filhos! Hoje com 25 anos, era o único presente que eu gostaria de ter ganhado. A oportunidade de crescer em paz. Tenho muita pena de ver crianças crescendo sendo bombardeadas com opiniões, crenças e sonhos que nem são delas. Mas as coitadinhas são tão pequeninas que só sabem absorver e não se defender. Aí crescem e se tornam o que a humanidade é hoje. Um aglomerado de gente com vícios, preconceitos, baixa-estima, com problemas psicológicos dos mais variados e sem identidade, sem saber quem são e para o quê vieram.

Eu cresci dentro da igreja, uma religião foi imposta à mim. Eu não tive escolha. Tive escolha aos 18, quando vi que aquele monte de ideias fantasiosas e primitivas já não serviam mais pra mim, e aí virei a “rebelde”. Bom, mas voltando, cresci ouvindo uma enxurrada de regras e sem entender boa parte delas. Fui impedida de experimentar coisas simples como festas de Haloween ou a delícia das Festas Juninas e Julinas porque a religião não permitia. Eu não ía para a escola nesses dias, e se eu voltasse com docinhos de Cosme e Damião pra casa, ah… ía tudo pro lixo. Isso na cabeça de uma criança, que tem referências e proporções muito diferentes dos adultos, é muito cruel. Respeito as diferenças, mas defendo a escolha. Quando a criança, o adolescente, enfim, o ser humano, optar por seguir determinada crença após lhe ter sido apresentada a riqueza das diferenças, aí estará a liberdade e o amor. Se a criança crescer e depois de conhecer e se tornar consciente, optar por ser padre, hippie, arquiteto ou uma panicat, ok!

A criança vai “enchendo a mochila” de porcaria, nem faz as perguntas e os pais já lhes dão as respostas. Rosa é de menina, azul é de menino, saia é de menina, calça é de menino, e mais uma c*r*lh*d* de ideias imbecis que um dia algum ser inventou e com certeza foi pra lucrar de alguma forma. Eu queria ter crescido livre. De uns 4 anos pra cá, me deparei com a “minha mochila” cheia de cacarecos e sabe o que é pior? Pra se livrar dessa tralha toda dói, dói muito. Porque a gente passa a acreditar que a lixarada são verdades, que não é possível ser feliz sem todas aquelas coisas. Quando você enxerga que você pode ser do jeito que quiser e acreditar ser o melhor para a sua evolução, é incrível, mas as crenças já se tornaram tão profundas que só com muita força de vontade e persistência você consegue se libertar.

Não culpo os pais, e os meus pais, por isso. Todos eles também foram criados assim, são gerações e gerações repetindo as mesmas bobagens. Mas alguém tem que romper isso, e espero ter a sabedoria de interferir somente quando muito necessário na minha vez. Meus pais me amaram da maneira que julgaram ser a certa e acredito que muitos pais hoje fazem o que fazem por acreditar nisso. O problema é que a maioria ama como os ensinaram a amar, e amor é algo que não se ensina, só se sente. Amor é algo natural, igual a fome e a sede. “Se você ama tem que impor limites, tem que disciplinar, tem que proibir, tem que, tem que, tem que”. Tudo que começa com “tem que” eu já desconfio. Muitas coisas são até bacanas, mas é necessário ponderar. Quantos acharam que proibindo teriam filhos “exemplares”, e depois viram os mesmos filhos tão podados, que estudaram nos melhores colégios e que viviam enfiados na igreja, entregues às drogas, meninas grávidas e etc? Estes pais e filhos devem ter se lembrado de tudo e esquecido do mais importante: amar.

Um livro que me ajudou a enxergar o quanto eu estava cheia de preconceitos e ideias errôneas foi “A essência do amor” de Osho, um sábio indiano que deixou um legado como tantos outros sábios, Gandhi, Jesus, Buda, Chico Xavier, Madre Tereza, e milhares de outros que nascem e morrem e nem temos conhecimento. Nesse Dia das Crianças meu presente seria para os pais, queria que cada ser nesse mundo tivesse a oportunidade de ler este livro, além de outros de diversas origens.  Assim, com um monte de opções e ideias diferentes, acredito que as escolhas seriam mais sensatas.

Eu cresci e na boa, nada “adiantou”. Levo minha vida do jeito que quero e acredito ser o melhor para mim e para o mundo. Tenho amigos gays, heteros e bissexuais, altos, baixos, gordos, magros, negros, brancos, católicos, evangélicos, espíritas, macumbeiros, hindus, muçulmanos, que fumam, que tem tatuagem, que não tem, que tomam banho, que não tomam… a lista é grande! 🙂 Hoje, sou livre. Hoje posso ser eu mesma, mas é terrível esperar 18, 21, 24 anos para sentir essa sensação.

Eu! 9 anos de idade com cara de “tire essa foto logo e devolva minha roupa normal” rsrs… e hoje aos 25, amando o Festival de Artes Bush Fire na Suazilândia, país africano.

No vídeo abaixo, uma criança se depara pela primeira vez com um casal gay e a reação dela? Ela não tem frescura, não tem preconceito, resumindo, ela os convida para participar de sua vida! A pobreza do mundo acontece quando perdemos nossa inocência, quando deixamos de ser criança.

E para quem acha difícil se reinventar, mudar de opinião, fica preocupado com o que a sociedade e a família vão dizer, recomendo o documentário abaixo. Trata-se de um relato verídico de pais religiosos que tiveram que enfrentar seus preconceitos para não deixarem de lado o bem supremo, o amor. Nele há um depoimento incrível de uma mãe que não conseguiu se libertar de suas teorias e perdeu sua filha para o suicídio. Ela diz que jamais se perdoará por não ter acordado a tempo. Assistam, vocês não vão se arrepender. Através do vídeo abaixo vocês encontrarão todos os capítulos legendados e poderão assistir o documentário na íntegra.

Singela opinião de quem sentiu na pele a pressão de uma sociedade hipócrita e egoísta.

Feliz Dia das Crianças à todos os pais e mães!

*Leia e assista minhas recomendações como uma criança, sem preconceitos 🙂

Sâmela Silva, é uma brasileira, que de viagem em viagem, foi morar em Moçambique, África, onde o despertar pela escrita falou mais alto. Jornalista e Consultora em Gestão Empresarial, vem descobrindo o mundo e se descobrindo por meio de ideias rabiscadas nos bloquinhos virtuais.  LinkedIn | Twitter | Facebook | Blog “A grama da vizinha”

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9 pensamentos sobre “Dia das Crianças: o presente é deixar seu filho ser ele mesmo

  1. Um texto corajoso, cheio de desabafo e abridor de mentes! Parabens, sam! Por ter coragem de se reinventar, de ir contra a corrente e principalmente de expor publicamente suas experiencias!
    Pra variar, eu concordo totalmente com vc…. eu vejo exemplo disso todos os dias, minha chefe eh judia e td vespera de feriado de alguma coisa q nao condiz com a religião, os filhos nao vao pra escola… isso ocorreu hj, no carnaval, na pascoa…. eles nao podem comer ovos de pascoa, nem panetone… um dia a coleguinha de sala do mais novo, de 6 anos, fez uma festa com o tema Monster High (pra quem nao conhece, um desenho q se passa num colegio para varios tipos de monstros, de mumias a vampiros) e os doces vinham em formato de caixãozinho, morcego e etc…. ele nao pode comer….. eu respeito a religiao e a escolha dela, mas acho tão banal isso…. nao sei oq muda no carater de uma pessoa comer ou nao ovo de pascoa, participar ou nao de uma festa inocente…… oq muda eh q eles têm 6 e 11 anos e não vivem a vida, não participam, passam vontade…. eh triste castrar seus filhos da alegria sem motivo q eh ser criança…. espero nunca fazer isso tb!

    • Pois é, se eles não quisessem participar disso por escolha própria, depois de saberem sem preconceitos e opiniões tendenciosas, ok, mas sabemos que não é bem por aí, infelizmente. Obrigada por compartilhar sua experiência, Natt!

  2. Talvez eu tenha tido muita sorte por ser criada por pais que me deram de presente a liberdade em cada dia da minha vida de criança e até hoje. E acho que também dei sorte por reconhecer isso em mim, neles, e por tentar entender o mundo e as pessoas da forma mais liberta possível. Parabéns pela coragem em escrever sobre esse tema. 🙂

  3. Mais uma vez parabéns pelo seu relato!!Mt importante é sabermos respeitar a individualidade e liberdade de nossos filhos. Nós pais as vezes nos pegamos com atitudes de que o filho é nossa propriedade, mas NÃO É! Acredito que os pais são instrumentos que viabilizam que um ser venha para Terra para cumprir uma missão e nós temos que ajudá-los à isso, sem contundo invadir sua personalidade, tolher suas escolhas e individualidade. Como saber se estamos acertando??? Difícil, mt difícil…mas como eu já disse num outro comentário penso que um bom caminho é tratá-los com respeito, amor e mostrar-lhes que para toda ação tem uma reação que irá repercutir por muito tempo na vida deles. Enquanto são bem pequenos temos que impor os limites normais, como cuidado p/ não se machucar, isso dói, isso é perigoso, etc, depois é mostrar-lhes que sempre haverá consequencias nas suas escolhas…Nem sempre é fácil…porque somos mt do que são nossos pais, é mt difícil sair do cazulo e virar borboleta…Eu mesma passei por essa catarze mts vezes, pq simplesmente odiava a maneira com a qual estavam me educando, com mt repressão, julgamentos, agressões físicas e morais, etc…Outro dia mesmo, comentei com Alê após ler um texto seu…” quero que as meninas façam as escolhas delas e quero apoiá-las, lógico só não apoiarei se elas escolherem um caminho da ilegalidade…pq daí vai contra os meus princípios, mas se elas escolherem um caminho tortuoso terão que aprender com suas escolhas e consequências…Penso que quanto mais castramos a liberdade das pessoas, mais chance delas errarem pq estão sem refêrencias de escolha…aí poderão seguir por um caminho completamente oposto ao do que os pais sempre pregaram, até para sentir como é o lado de lá….Adoro seus depoimentos, me vejo em mts deles…Mais uma vez adorei, bjs

    • Adoro saber sobre suas experiências, afinal você é mãe e pode falar com propriedade. Pelo jeito temos muitas coisas em comum e muito assunto para o próximo encontro! 🙂 Ah, o livro que citei me faz lembrar muito o jeito que o Fe diz que vocês educam a Helena, e isso é bem bacana! Se tiver curiosidade, leia um dia, vale a pena! 😉 Bjo!

  4. Você toca num ponto que é liberdade em criança. Mas também os adultos vivem nessas prisões de ilusão, preconceitos, regras e mais regras, coisas que nem percebem.
    Concordo com você. Criança deve ser livre.

  5. Pingback: O que andam fazendo com Deus? | Blog da Sâ

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